diversão para todos?
o lindo disco Arca de Noé, do Vinicius fez parte da minha infância, e tem feito total parte da infância da minha filha. muita música, muita poesia, muita diversão, muita coisa pra pensar…
… mas… quando recomecei a ouvir o disco depois de adulta, foi impossível não reparar na música “Aula de Piano”, e impossível não me perguntar que raios essa música tá fazendo num disco infantil!
a música é uma delícia, animadíssima, a interpretação (com As Frenéticas) é super divertida, mas peralá, minha gente!
não é preciso se aprofundar nem um pouco na análise pra captar o espírito da coisa. a letra, cheeeia de malícia, fala de uma certa menininha bonitinha, que tomava aulas particulares de piano. enquanto a mãe fazia a sesta no quarto, a garota e o professor “se divertiam” horrores na sala da casa! a coisa chegava num ponto que a aula era transferida para o sofá (não dá pra ignorar o brilhante trocadilho: sol-fá), e no auge da empolgação, a aluna exemplar mostrava todo seu talento vocal, soltando gritinhos que ressoavam pela casa toda. com o tempo, construíram uma bem sucedida carreira juntos, não só no piano, mas também na vida conjugal, sempre com um gostinho de nostalgia dos bons tempos de professor/aluna… basicamente é isso.
tudo bem que o Vinicius era meio lelé, mas se o disco era realmente focado no público infantil, alguém tinha que ter dado um toque, pô! talvez ele fosse considerado meio genial demais pra alguém querer meter o bedelho na seleção das faixas, sei lá…
tudo bem que os tempos eram outros, ninguém ligava muito pro politicamente (in)correto, pro estímulo da sexualidade/sensualidade precoce, pra pedofilia etc. além do que, o ano era 1980, final de ditadura, ninguém devia estar muito afim de bancar o censor. mas ainda assim, a música destoa total do resto do disco! será que os pais não achavam nem um pouco estranho?
eu me divirto… e apesar de achar surreal, nunca impedi minha filha de ouvir, não. ela até canta alguns trechos (!).dane-se, eu gosto da música e continuo adorando o disco.
só acho que é, no mínimo, um sinal muito interessante pra gente perceber as mudanças loucas dos tempos…
Aula de Piano
Vinicius de Moraes / Toquinho
Depois do almoço na sala vazia
A mãe subia pra se recostar
E no passado que a sala escondia
A menininha ficava a esperar
O professor de piano chegava
E começava uma nova lição
E a menininha, tão bonitinha
Enchia a casa feito um clarim
Abria o peito, mandava brasa
E solfejava assim:
Ai, ai, ai
Lá, sol, fá, mi, ré
Tira a mão daí
Dó, dó, ré, dó, si
Aqui não dá pé
Mi, mi, fá, mi, ré
E agora o sol, fá
Pra lição acabar
Diz o refrão quem não chora não mama
Veio o sucesso e a consagração
Que finalmente deitaram na fama
Tendo atingido a total perfeição
Nunca se viu tanta variedade
A quatro mãos em concertos de amor
Mas na verdade tinham saudade
De quando ele era seu professor
E quando ela, menina e bela
Abria o berrador
Ai, ai, ai
Lá, sol, fá, mi, ré
Tira a mão daí
Dó, dó, ré, dó, si
Aqui não dá pé
Mi, mi, fá, mi, ré
E agora o sol, fá
Pra lição acabar
CA respondeu:
Eu me liguei da malícia na letra dessa música quando eu tinha uns 12, 13 anos e lembro de ter achado um absurdo… Claro que aqui em casa o cd rola direto, as crianças gostam e a gente não fica implicando com isso, afinal a maldade, em tese, está na cabeça dos adultos. Mas, meu Deus do céu, onde Vinícius estava com a cabeça? Me lembrou um comentário que a Tônia Carrero faz sobre ele no filme documetário (ótimo, aliás, quem não viu, assista!), ela diz que quando Vinícius chegava em algum lugar (devia ser num bar…), os amigos cantavam, no ritmo de “se essa rua fosse minha”:
“Se eu tivesse, se eu tivesse muitos vícios
o meu nome, o meu nome era Vinícius
se esses vícios fossem todos imorais
eu seria O Vinícius de Moraes” – kkkkkkkkkk
O cara se casou nada menos do que NOVE vezes, me dá a sensação de ser uma daquelas pessoas que não conseguem cultivar um amor maduro, precisam sempre da adrenalina da paixão dos primeiros tempos. Acho triste isso… Tenho pena, até.
Novembro 13, 2008 at 2:00 pm. Link Permanente.